Viagem Apostólica

Papa Francisco se reúne com bispos mexicanos

No discurso, o Papa Francisco tocou em diversos aspectos da realidade mexicana como o narcotráfico, a migração e a missão dos leigos na Igreja

André Cunha, da redação

Papa Francisco se reúne com bispos mexicanos

Foto: Reprodução CTV

Os bispos do México puderam participar na tarde deste sábado, 13, de um encontro com o Papa Francisco, que ocorreu no âmbito de sua visita apostólica aos país. Ele se reuniu com o episcopado na Cidade do México, arquidiocese primaz, na Catedral da Assunção.

O Papa fez uma longa reflexão e dividiu-a em quatro pontos, inspirados em Nossa Senhora de Guadalupe: Um olhar de ternura;​ Um olhar capaz de tecer; Um olhar atento e solidário; não adormecido e Um olhar de conjunto e de unidade. Ao mesmo tempo, tocou em diversos aspectos da realidade mexicana. Veja:

Um olhar de ternura – mundanismo, jovens e o narcotráfico

“Antes de mais nada, a “Virgem Morenita” ensina-nos que a única força capaz de conquistar o coração dos homens é a ternura de Deus”, disse o Papa. Ele lembrou a “longa e dolorosa história” que atravessou o povo mexicano, marcada pelo derramamento de muito sangue, violência e incompreensões. Nesse sentindo, pediu aos bispos que inclinem-se, “com delicadeza e respeito”, sobre a “alma profunda” desse povo, com atenção e decifrando o seu “rosto misterioso”.

Francisco exortou os bispos à vigilância, para que seus olhares não se cubram com as “penumbras da névoa do mundanismo”. ” “Não vos deixeis corromper pelo vulgar materialismo nem pelas ilusões sedutoras dos acordos feitos por baixo da mesa; não ponhais a vossa confiança nos «carros e cavalos» dos faraós de hoje, porque a nossa força é a «coluna de fogo» que irrompe separando em duas as águas do mar, sem fazer grande rumor (Ex 14, 24-25)”, pediu o Pontífice.

Uma preocupação particular do Papa são os jovens. Falou sobre eles na cerimônia de abertura e novamente no encontro com os bispos. Segundo o Papa, muitos jovens estão seduzidos pelo poder vazio do mundo, exaltam as ‘quimeras’ (fantasias, figuras místicas) e “revestem-se dos seus símbolos macabros para comercializar a morte em troca de moedas”. “Peço-vos que não subestimeis o desafio ético e anticívico que o narcotráfico representa para a sociedade mexicana inteira, incluindo a Igreja”, desejou Francisco.

.: Leia a íntegra do discurso do Papa aos bispos do México

Um olhar capaz de tecer – humildade e os povos indígenas

“No manto da alma mexicana, Deus teceu, com o fio dos traços mestiços do seu povo, o rosto da sua manifestação na ‘Morenita’. “Assim, orientou aos bispos à capacidade de imitar esta liberdade de Deus, escolhendo o que é humilde. Depois, alertou-os para a “vã pretensão” de mudar o povo, como se o amor de Deus não tivesse força suficiente para o mudar.

Pediu um olhar de “singular delicadeza” para os povos indígenas, afirmando que o México tem necessidade das suas raízes ameríndias, “para não ficar um enigma sem solução”. “Os indígenas do México esperam ainda que se lhes reconheça, efetivamente, a riqueza da sua contribuição e a fecundidade da sua presença para herdar aquela identidade que vos torna uma nação única, e não apenas uma entre outras”.

Um olhar atento e solidário, não adormecido – estagnação, evangelização, clericalismo e a solidão dos sacerdotes

No viés desse “olhar”, o Papa alertou para o perigo da estagnação de “dar velhas respostas às novas questões”. Todavia, afirmou que o passado é um “poço de riquezas” a ser escavado e que pode inspirar o presente e iluminar o futuro.

Convidou os bispos a trabalharem sem medo na tarefa de evangelizar e aprofundar a fé, por meio de catequeses que saibam valorizar a religiosidade popular mexicana.

“Por isso nós, pastores, precisamos de vencer a tentação da distância e do clericalismo, da frieza e da indiferença, do triunfalismo e da auto-referencialidade. Guadalupe ensina-nos que Deus é familiar no seu rosto, que a proximidade e esse abaixar-se, podem fazer mais do que a força”.

Depois, o Papa Francisco pediu aos bispos que guardem o rosto de seus sacerdotes no coração, não deixando-os expostos à solidão e ao abandono, como “presa do mundanismo que devora o coração”.

“Estai atentos e aprendei a ler os seus olhares, para vos alegrardes com eles quando se sentem felizes contando tudo o que ‘fizeram e ensinaram’ (Mc 6, 30), e para não os abandonardes quando se sentem um pouco desanimados, só conseguindo chorar porque ‘negaram o Senhor’ (Lc 22, 61-62), e também para os apoiardes, em comunhão com Cristo, quando algum, abatido, sair com Judas «na noite» (Jo 13, 30)”, refletiu.

Um olhar de conjunto e de unidade – comunhão, leigos, educação, testemunho e os migrantes

Essa etapa do discurso foi dedicada ao dom da unidade e da comunhão. “Exorto-vos, com a mais viva insistência, a conservar a comunhão e a unidade entre vós. Isso é essencial, irmãos. Se tiverem que brigar, briguem, mas como homens, homens de Deus, frente a frente. Que ao passar a brigar, peçam perdão. A comunhão é a forma vital da Igreja, e a unidade dos seus pastores dá prova da sua veracidade”, garantiu o Santo Padre.

O Papa lembrou também dos leigos, pedindo aos bispos que cuidem de maneira especial de sua formação e preparação, superando toda a forma de clericalismo e envolvendo-os ativamente na missão da Igreja.

Disse ainda que será muito importante que a Pontifícia Universidade do México esteja cada vez mais presente no coração dos esforços eclesiais para garantir “aquele olhar de universalidade”.

Francisco afirmou também que na Igreja, não há necessidade de “príncipes”, mas de uma comunidade de testemunhas do Senhor. “Compete-vos semear Cristo no território, manter acesa a sua luz humilde que ilumina sem ofuscar, garantir que nas suas águas se sacie a sede do vosso povo; levantar as velas de modo que o sopro do Espírito as impulsione e não encalhe a barca da Igreja no México”.

Francisco lembrou os milhões de homens e mulheres que migram para o norte à procura de novas oportunidades, deixando suas raízes para se aventurar, mesmo sendo clandestinos.

“Irmãos – disse o Papa os bispos –  que os vossos corações sejam capazes de os seguir e alcançar além das fronteiras. Reforçai a comunhão com os vossos irmãos do episcopado estadunidense, para que a presença materna da Igreja mantenha viva as raízes da sua fé, as razões da sua esperança e a força da sua caridade”.

Conclusão

Por fim, o Papa disse ter a certeza de que o México e a sua Igreja chegarão a tempo ao encontro consigo mesmo, com a história, com Deus. “Talvez alguma pedra no caminho atrase a marcha, e o cansaço da viagem exigirá alguma pausa – apontou Francisco – mas nunca será suficiente para vos fazer perder a meta. Na verdade, poderá chegar tarde quem tem uma Mãe à sua espera? Quem pode ouvir continuamente ressoar no próprio coração: ‘Não estou aqui Eu, que sou tua Mãe?'”, disse, recordando a mensagem de Nossa Senhora de Guadalupe.

Após o encontro com os bispos, o Papa Francisco celebra a Missa na Basílica de Guadalupe. Acesse a programação.

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